terça-feira, 6 de setembro de 2016



A causa do problema nunca será a solução do problema.


Detox


Estar apaixonada por alguém é como estar sob efeito de drogas. Então, da mesma forma, se desapaixonar é como entrar num processo de desintoxicação. Pausa. Tudo bem que nunca precisei realmente passar por um processo de desintoxicação de drogas, no sentido literal, para saber como é, mas digamos que, para mim, na minha detox de paixão eu tenho os seguintes sintomas:

- Sinto calafrios, como se o fantasma do ser amado estivesse espiando por cima do meu ombro

- Fico enjoada, como se todos os sapos engolidos e todas as palavras e situações constrangedoras; todas as declarações em vão e todas as lembranças quisessem sair goela a fora para depois serem esquecidas
- Suspiros. Muitos suspiros. Suspiros tristes de pesar podem ser ouvidos pela casa vazia. Restinhos de alma que se evaporam pela boca
- O coração aperta, a garganta aperta, a boca seca, os olhos ficam úmidos
- Conversas sem fim com amigos nas redes sociais começam a ocorrer. E encho tanto a paciência deles que preciso selecionar a cada dia para não sobrecarregar um só com tanto drama
- Sinto a vertigem dos desiludidos, de quem um dia se sentiu no topo do universo, mas depois olhou para a dura realidade lá embaixo
- Então, de vez em quando, sinto como se estivesse em queda livre, o estômago dá um pequeno salto e as pernas ficam bambas
- E aí o baque. O corpo fica todo pesado e não quer mais levantar da cama, seguido de um sono infinito e resfriados contínuos
- Vontades súbitas de ir fazer trabalho voluntário na África, trabalhar no Canadá, fazer aliah para Israel e viver num kibutz plantando laranjas ou montar uma ecovila em Granja Viana aparecem aqui e ali
- A mão de mandar mensagens chega a tremer, se é que não vai em frente e faz exatamente isso, me humilhando ainda mais para o amor não correspondido em questão

Este processo pode durar algum tempo e os sintomas podem se intercalar ou ocorrer simultaneamente todos juntos ou apenas alguns combinados. E depois de rastejar por esta espécie de luto do amor, criei uma estratégia que gostaria de compartilhar, mas que ainda está em fase de desenvolvimento. Aqui um passo a passo prático para sair da fossa e recomeçar a viver com dignidade:

- Todos os dias de manhã, antes de qualquer coisa, abra as janelas
- Esqueça o celular em casa e se, por ventura, cair na tentação de stalkear, desligue na hora ou jogue ele longe, cruzcredo. Not today, Satan
- Toda vez que lembrar da pessoa, faça pelo menos 15 segundos de algum exercício físico até esquecer
- Ache uma atividade que te proporcione prazer e conforto. Para mim funciona ouvir música, tenho aqui toda uma playlist motivacional da melhor qualidade engatilhada
- Saia para passear, saia com os amigos, saia com a família, saia com o cachorro
- Permita-se se amar, olhe no espelho com sincero orgulho e perdão
- Faça cursos novos, conheça gente nova
- Psicanálise é sempre uma boa opção
- Respire fundo, quantas vezes for necessário. Tenha paciência consigo mesmo
- Pratique meditação
- Tome um banho quentinho
- Foque no trabalho
- Faça tudo o que puder levando o dobro do tempo que normalmente levaria, prestando muita atenção no que está fazendo
- Adie cada vez mais o motivo do seu vício. Adie aquele pensamento: "vou pensar nisso mais tarde". Adie aquela mensagem: "respondo isso depois". Adie cada vez mais até não sentir nenhuma necessidade disso
- Se dedique a alguma atividade manual, cuide do seu jardim ou cultive um jardim
- Tente lembrar sempre que puder do quanto é importante passar por esta fase e do quanto é importante se desvincular desta pessoa
- Perdoe também, se esforce para encontrar o perdão dentro de si, liberte-se



sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Das Incoerências da Vida


Preciso de equipamentos para trabalhar e trabalhar para ter equipamentos. Nos sites de vagas de emprego, exigem que eu, desempregada e sem dinheiro, pague para poder ter acesso às empresas e não que às empresas paguem para ter acesso a mim. Quando me entrevistam, perguntam logo se já tenho empresa aberta, porque não querem arcar com chatíssimos direitos trabalhistas que me ajudariam a fazer o serviço, tais como vale transporte, vale alimentação, férias pagas, horas fixas etc. Não. Querem que eu pague para trabalhar com um sorriso no rosto.
Se eu estivesse trabalhando, estariam me sobrecarregando com a função de 10 pessoas e pagando por uma só. Tem que ter experiência para trabalhar e trabalhar para ter experiência. Sou muito qualificada para determinadas vagas; sou pouco qualificada para outras; sou muito jovem para certas coisas; sou muito velha para outras. Enquanto isso o tempo passa.
Falam para eu abrir o meu próprio negócio, mas preciso de dinheiro para empreender e empreender para ter dinheiro. Quero ter uma conta no banco para colocar o dinheiro, mas precisa de dinheiro para manter uma conta no banco. E com esta idade, minha mãe já tinha a primeira filha, casa, carro e metade da carteira de trabalho assinada.
Numa dinâmica em grupo, não pode falar muito de si, para não parecer arrogante, mas também não pode ficar sem falar, senão parece uma ninguém. Não pode sair organizando, porque querem pau mandado, mas não pode só ficar obedecendo, porque querem gente com iniciativa. E cuidado para não dar uma de engraçadona, porque não é profissional, mas esta cara séria é tão antipática, né?
Quero estudar para ter emprego, mas preciso de emprego para estudar. Queria fazer intercâmbio, mas se fizer é capaz de perder o bonde e quando voltar não ter mais vaga no mercado. Resolvo focar nos projetos pessoais, mas me sinto culpada por não estar mandando currículos e quando mando currículos, lembro dos projetos parados. Enquanto isso tem criança de 12 anos ganhando Nobel da Paz e descobrindo a cura do câncer.
Tantas realidades inconciliáveis numa lógica incoerente que enxerga as pessoas com data de validade e com uma rígida agenda pré-determinada, ao mesmo tempo em que romantiza os aventureiros. Muitas vezes parece que o tempo já passou, mas que o momento nunca chega. Parece que a vida não acontece, enquanto tudo muda ao redor. Tudo menos eu. Eu não aconteço, eu não sei quem sou, não sei o que faço, não sei o que quero, não sei o que sinto. Já nem opino mais. É inútil. Nada parece se transformar, nada realmente necessário. Estamos andando em círculos e não chegamos a lugar algum. Qual é o meu valor, qual é o valor do outro? Para que tudo isso?

sábado, 13 de agosto de 2016



Ando pensando naqueles tempos em que tudo era mais difícil. Jovens apaixonados em tempos de guerra, ou mesmo em tempos de paz, ficavam meses sem se ver, precisavam se comunicar por cartas e olhe lá. Quão ardentes não eram essas paixões, esses amores impossíveis?
Hoje com tudo ao alcance de um clique, ninguém mais se dá ao trabalho, ninguém valoriza. Vivemos mesmo em tempos de amores líquidos, tudo descartável. E as pessoas têm tempo, hein? Ô se tem...
Tempo de sobra para não ver amigos, não falar com a família, dispensar aquele abraço, postergar aquele beijo... Não aceito isso, não existe futuro, só presente. Não tenho tempo a perder. Sou faminta, não sei ser requentada em banho maria, já entro na panela fervente e viro logo vapor.

Sofri uma queimadura no peito, bem onde já estava doendo. Estava doendo tanto que pegou fogo quando entrou em contato com a manta. Estava doendo tanto que sequer consegui perceber que a dor era externa, não interna, tão imersa estava neste sentimento. O que doía por dentro passou a doer mais e foi para fora. A dor deste coração que não escolhe, apenas ama sem querer e não recebe amor de volta. E dói, se contorce, grita, sangra, agoniza, queima.

domingo, 31 de julho de 2016

Mudar


Eu sou uma pessoa bem diferente do que eu pensava que fosse. Quem eu sou fugiu completamente do meu controle. E estou tentando lidar com erros inéditos e me desapegar da necessidade constante de agradar as pessoas, custe o que custar. Eu sou quem eu sou, se alguém tem algum problema com isso, não é da minha conta.


Talvez seja uma surpresa para as pessoas, mas eu não sou aquela imagem estática que eu mesma achei ser durante tanto tempo. Um ideal fantasioso de mim. Eu mudo o tempo inteiro, influenciada pelas situações, pelas pessoas, pelos meus pensamentos e minhas emoções. Eu simplesmente não posso mais tentar corresponder a este modelo plano e falso, não posso continuar lutando contra a natureza e me martirizando caso não interprete bem este papel para mim mesma e para os outros.

A verdade é que eu tenho medo de ser rejeitada, abandonada e, por todos os lados, vejo esta expectativa silenciosa, esta análise e também um pouco de julgamento, pelo qual as pessoas tentam decidir se vale a pena continuar ao meu lado ou não. Entretanto, no fundo tudo pode não passar de paranoia, no fundo ninguém presta tanta atenção assim, eu acho.

Deste modo, vou continuar vivendo e abraçando as minhas mudanças da melhor forma possível. Vou continuar observando meus pensamentos e minhas emoções, porque sei o quanto isso é importante para se viver feliz, mas não por causa de outras pessoas.

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